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Caderno Entrevista

Chef Carlos Ribeiro

Carlos: “Sou um
brasileiro diferente”

(Texto: Suzana Sakai/NB | Fotos Jin Yonezawa/NBl)

Sem nenhuma ascendência japonesa, mas com verdadeiro espírito japonês, o chef Carlos Ribeiro é um dos fenômenos da culinária oriental no Brasil. Ele, que acredita que seu interesse pela cultura oriental seja de vidas passadas, já deu aulas nas Universidades de Sophia e de Osaka, no Japão.

Simpático e muito divertido, Carlos conseguiu um espaço em sua agenda lotada para um bate-papo com a equipe do Zashi. Confira!

Entrevista

Zashi - De onde veio o seu interesse pela culinária japonesa?
Carlos Ribeiro -
A primeira vez que pensei no Japão foi aos 5, 6 anos e lembro que gostava de desenhar o Monte Fuji, não sei por quê. Na época, não tinha internet, na minha casa não tinha livros de ilustração sobre o Japão, mas eu devo ter visto a imagem em algum lugar, ou, como se fala, em vidas passadas.

Aos 11 anos, comecei a estudar com a primeira família japonesa que eu vi. Isso em João Pessoa, um lugar bastante difícil de encontrar japoneses, principalmente naquela época. Estudei com eles todo o ginásio, todo o colegial e ficamos muito amigos, como irmãos. Foi aí que comecei a conhecer a culinária japonesa caseira. Eu me lembro que a primeira vez que fui comer oniguiri eu achei extremamente estranho, o sashimi, então, desceu pela garganta, mas, como estava em um evento importante, tive que comer.

Sempre me interessei pela cultura japonesa e, quando vim para São Paulo, comecei a freqüentar mais restaurantes, ter amizade com alguns mestres japoneses e passei a aprender e a me interessar mais pela cultura.

Em 2000, fui para o Japão pela primeira vez. Fui a passeio e acabei dando palestras. Conversei um pouco na Universidade de Sophia, em Tóquio. Dois anos depois, eu retornei ao Japão a convite do Museu de Etnologia e fui falar sobre comida brasileira e comida japonesa, as mesclas e as fusões.

Zashi - Você falou de suas visitas ao Japão na Universidade de Sophia e no Museu de Etnologia. O que guarda dessas experiências?
Carlos –
Saudade... Eu fui sempre bem recebido no Japão. Mas, quando você vai como convidado, em um evento fechado, encontra estudantes japoneses que estiveram no Brasil para estudar português. Fiquei surpreso, minha sala cheia de gente e o mais divertido é que os japoneses que falavam português tinham sotaque gaúcho e amavam Brasília. Eu me diverti muito, visitei vários lugares. Acho que o japonês sabe receber bem e mostrar o país de forma a deixar a gente com vontade de voltar.

Zashi - Você também comentou que sua primeira experiência com a culinária japonesa não foi agradável. Como seu paladar se adaptou aos pratos japoneses?
Carlos -
Depois da festa dos 80 anos de imigração, a culinária japonesa ficou mais popular no Brasil, no sentido de ter mais restaurantes, e o yakissoba ganhou uma força muito grande nos “deliverys” chineses. Mas lembro que foi aqui em São Paulo que comecei a comer essas iguarias.

Zashi - Que prato você destaca da culinária oriental?
Carlos -
Eu acho que o teishoku é bem conhecido pelos brasileiros, mas, para mim, um prato que se destaca é o chawanmushi. Eu acho esse prato especial, de uma delicadeza sem tamanho. Mas sou um brasileiro bem diferente. Gosto de temaki com natô, shabu-shabu. Gosto muito de oniguiri, se bem que oniguiri no Brasil é meio estranho. No Japão, eu “fazia a festa”, comprava uns quatro, cinco.

Zashi - Sua tese de doutorado é sobre o hibridismo e a comensalidade na cidade de São Paulo. Em sua opinião, a culinária japonesa desempenha um importante papel nesse processo histórico?
Carlos -
Com certeza, porque cem anos é muito tempo. E é uma comunidade que foi sempre crescendo, não estagnou, houve muitos casamentos, a própria aceitação do brasileiro na mestiçagem. Eu acho que a mídia favoreceu muito os japoneses a entenderem que eles não são diferentes dos outros. Na minha época, japonês só estudava informática, cálculo, engenharia... agora, acho que houve uma disseminação nas atividades. E o crescimento dos restaurantes, a popularização dos pratos atrai muitos jovens, então há uma comensalidade, há um recebimento. A comida caiu no gosto do povo, além de ser considerada saudável.

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