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Zashi -
De onde veio o seu interesse pela culinária japonesa?
Carlos Ribeiro - A primeira vez que pensei no Japão foi aos
5, 6 anos e lembro que gostava de desenhar o Monte Fuji, não sei
por quê. Na época, não tinha internet, na minha casa
não tinha livros de ilustração sobre o Japão,
mas eu devo ter visto a imagem em algum lugar, ou, como se fala, em vidas
passadas.
Aos 11 anos,
comecei a estudar com a primeira família japonesa que eu vi. Isso
em João Pessoa, um lugar bastante difícil de encontrar japoneses,
principalmente naquela época. Estudei com eles todo o ginásio,
todo o colegial e ficamos muito amigos, como irmãos. Foi aí
que comecei a conhecer a culinária japonesa caseira. Eu me lembro
que a primeira vez que fui comer oniguiri eu achei extremamente estranho,
o sashimi, então, desceu pela garganta, mas, como estava em um
evento importante, tive que comer.
Sempre me
interessei pela cultura japonesa e, quando vim para São Paulo,
comecei a freqüentar mais restaurantes, ter amizade com alguns mestres
japoneses e passei a aprender e a me interessar mais pela cultura.
Em 2000, fui
para o Japão pela primeira vez. Fui a passeio e acabei dando palestras.
Conversei um pouco na Universidade de Sophia, em Tóquio. Dois anos
depois, eu retornei ao Japão a convite do Museu de Etnologia e
fui falar sobre comida brasileira e comida japonesa, as mesclas e as fusões.
Zashi -
Você falou de suas visitas ao Japão na Universidade de Sophia
e no Museu de Etnologia. O que guarda dessas experiências?
Carlos Saudade... Eu fui sempre bem recebido no Japão.
Mas, quando você vai como convidado, em um evento fechado, encontra
estudantes japoneses que estiveram no Brasil para estudar português.
Fiquei surpreso, minha sala cheia de gente e o mais divertido é
que os japoneses que falavam português tinham sotaque gaúcho
e amavam Brasília. Eu me diverti muito, visitei vários lugares.
Acho que o japonês sabe receber bem e mostrar o país de forma
a deixar a gente com vontade de voltar.
Zashi -
Você também comentou que sua primeira experiência com
a culinária japonesa não foi agradável. Como seu
paladar se adaptou aos pratos japoneses?
Carlos - Depois da festa dos 80 anos de imigração, a
culinária japonesa ficou mais popular no Brasil, no sentido de
ter mais restaurantes, e o yakissoba ganhou uma força muito grande
nos deliverys chineses. Mas lembro que foi aqui em São
Paulo que comecei a comer essas iguarias.
Zashi -
Que prato você destaca da culinária oriental?
Carlos - Eu acho que o teishoku é bem conhecido pelos brasileiros,
mas, para mim, um prato que se destaca é o chawanmushi. Eu acho
esse prato especial, de uma delicadeza sem tamanho. Mas sou um brasileiro
bem diferente. Gosto de temaki com natô, shabu-shabu. Gosto muito
de oniguiri, se bem que oniguiri no Brasil é meio estranho. No
Japão, eu fazia a festa, comprava uns quatro, cinco.
Zashi -
Sua tese de doutorado é sobre o hibridismo e a comensalidade na
cidade de São Paulo. Em sua opinião, a culinária
japonesa desempenha um importante papel nesse processo histórico?
Carlos - Com certeza, porque cem anos é muito tempo. E é
uma comunidade que foi sempre crescendo, não estagnou, houve muitos
casamentos, a própria aceitação do brasileiro na
mestiçagem. Eu acho que a mídia favoreceu muito os japoneses
a entenderem que eles não são diferentes dos outros. Na
minha época, japonês só estudava informática,
cálculo, engenharia... agora, acho que houve uma disseminação
nas atividades. E o crescimento dos restaurantes, a popularização
dos pratos atrai muitos jovens, então há uma comensalidade,
há um recebimento. A comida caiu no gosto do povo, além
de ser considerada saudável.
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