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Arquivo NippoBrasil - Edição 171 - 4 a 10 de setembro de 2002
Chindon-ya
A ressurreição de uma arte mambembe

Com o castelo ao fundo, performances também acontecem num palco

O sino em forma de prato e o tambor: instrumento típico do Chindon-ya
 

Concurso em Toyama reúne Chindon-ya de todo o país

(Reginaldo Okada)

Toyama - Houve uma época em que era muito comum encontrar pelas ruas das grandes capitais japonesas personagens vestidos com roupas extravagantes tocando instrumentos e carregando bandeirolas com propaganda de algum estabelecimento comercial da região. Época remota, essa.

Conhecidos como Chindon-ya, esses grupos divertiam os transeuntes com música e performances singelas e chamavam a atenção para os caracteres grafados nas flâmulas que faziam tremular com seus passos ritmados e reviravoltas. Em função do desenvolvimento industrial e econômico eles rarearam. As propagandas ganharam meios mais apelativos e abrangentes e, se antigamente os praticantes já eram vistos com olhos discriminativos, marginalizados como qualquer artista mambembe, as condições de sobrevivência no mundo moderno ficaram ainda mais difíceis. Foram poucos os grupos que conseguiram se manter em atividade através dos tempos.

Nestes últimos anos um fenômeno interessante tem sido notado. Muitos jovens japoneses estão se interessando pela quase extinta arte, ingressando nos grupos já existentes ou criando outros. Um exemplo pode ser encontrado na prestigiada Universidade Waseda, de Tóquio. Alguns dos seus alunos, recentemente, formaram um clube para pesquisar e aprender as técnicas de execução da performance, ao mesmo tempo que se divertem.

 

Encontro de personagens bizarros

Os jovens aderem à tradição com novos visuais
 

Nascimento da arte

A origem do Chindon-ya remonta há mais de 150 anos. Na cidade de Edo, atual Tóquio, havia tempo já era comum os vendedores ambulantes oferecerem produtos gritando e batendo tambor ou sino. Mas foi quando um deles, o vendedor de balas conhecido pela alcunha de Amekatsu, se transferiu para Osaka, onde essa prática ainda não era popular, que principiaria o estilo de fazer propaganda ambulante.

Amekatsu fez muito sucesso nas ruas de Osaka tocando alguns instrumentos de percussão e gritando frases engraçadas, que ao mesmo tempo eram propaganda das balas que vendia.

Por volta do ano de 1845, foi proibido em Osaka que os teatros colocassem cartazes de propaganda das peças pela cidade, e Amekatsu, vendo uma boa oportunidade para aumentar seus rendimentos, ofereceu-se para divulgar os eventos. Os teatros conseguiram recuperar o público e na cidade era só escutar o tilintar do sino e o povo já corria para a rua, seguindo Amekatsu. Nos anos que se seguiram, muitas pessoas copiaram o exemplo de Amekatsu como opção profissional. Em Osaka, eles eram chamados de Touzai-ya e em Tóquio, de Hirome-ya.

Incrementação musical

Um outro fato viria a contribuir para incrementar a atividade dos propagandistas. Com o fim da era do xogunato e a instauração de um novo governo na Restauração Meiji (1868~1912), foi criado o exército japonês no mesmo molde que os ocidentais, e assim surgiram as bandas musicais militares no país e a difusão do uso dos instrumentos provenientes do exterior.

No período Meiji, o Japão travou guerra com a Rússia e a China e muitos cidadãos foram convocados para engrossar as tropas. Após o fim do conflito, vários soldados que aprenderam a tocar os instrumentos de sopro ocidentais se viram desempregados e passaram a utilizar seus dons musicais unindo-se aos grupos que faziam propaganda nas ruas.

Foi só no início da era Showa (1926~1989) que surgiu a denominação Chindon-ya, como imitação do som que o grupo produzia. O “chin” é a batida no sino e o “don” é a percussão do tambor. A formação clássica era constituída de, no mínimo, três pessoas: um músico que tocava tambor e sino, um outro que dedilhava o shamisen e um terceiro que soprava a clarineta.

Atualmente, há variadas formações e instrumentos, mas o número mínimo de componentes ainda costuma ser de três pessoas, sendo imprescindível o tocador do tambor e do sino conjugados, que é um instrumento inventado pelos praticantes do Chindon-ya.

No início da era Showa, com o advento do cinema, os atores de teatro popular, que viajavam o país fazendo apresentações, também começaram a perder seus empregos e encontram na atividade dos Chindon-ya uma maneira de garantir o ganha-pão. Sob a influência destes, os grupos ganharam roupas ainda mais caracterizadas e maquiagens bizarras.

Festival Nacional

Nos últimos trinta anos, com a massificação dos meios de comunicação e propaganda, a atividade dos Chindon-ya entrou em declínio e é raro deparar-se com um deles pela rua. Porém, existe um evento na cidade de Toyama, capital da província homônima, que reúne os grupos de todo o país, o Zenkoku Chindon Konkuru (Concurso Nacional de Chindon), promovido anualmente pela prefeitura, sempre no início da primavera, na mesma época da floração do sakura, desde 1955. É o único festival nacional do gênero para profissionais dessa arte.

O local do evento é o parque em volta do Castelo de Toyama, no centro da cidade. Este ano, na sua 46ª edição, participaram 35 grupos, demonstrando que realmente a atividade vem recuperando prestígio. No mesmo concurso realizado em 1991 apenas 13 deles se inscreveram.

A festa vale a pena pelo colorido, pela nostalgia e pela alegria de se ver uma arte tão original voltando a ser respeitada, ainda que timidamente. Os tempos mudam, os costumes se transformam, mas a diversidade cultural típica deve ser preservada e incentivada como manutenção da personalidade e ponto de referência de um povo. (Colaborou Satomi Shimogo)

*O jornalista Reginaldo Okada viajou a Toyama a convite da JAL (Japan Airlines)

 
(Colaborou Satomi Shimogo)
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